Quem cruza com Manoel Santos pelas ruas de Goiânia talvez não imagine que, depois de cumprir sua jornada como gari, ele dedica horas a criar pinturas que já conquistaram espaço em importantes exposições de arte. Há cerca de 20 anos na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), o artista construiu uma trajetória paralela nas artes plásticas e encontrou no Cerrado a principal inspiração para suas telas.
A relação entre as duas atividades é mais próxima do que parece. Durante o trabalho de limpeza urbana, Manoel observa a vegetação, os animais e as paisagens que fazem parte do cotidiano da capital. Essas imagens ficam guardadas na memória e, mais tarde, aparecem em suas pinturas.
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Entre suas inspirações estão as araras-canindé, aves que chamam sua atenção durante os percursos pela cidade. A natureza, entretanto, não aparece apenas como cenário bonito. O artista também retrata as transformações ambientais do Cerrado, incluindo os efeitos das queimadas e o retorno da vegetação depois das chuvas.
Do trabalho nas ruas ao reconhecimento na arte
Manoel não começou a desenhar depois de adulto. Seu interesse pela produção artística surgiu ainda na infância, quando criava animais com argila e preenchia cadernos com desenhos.
Com o tempo, a curiosidade se transformou em dedicação à pintura. O contato com outros artistas e a observação da natureza ajudaram a desenvolver seu estilo. A trajetória inclui participações e premiações em salões de arte desde a década de 1980, além de uma passagem pela Bienal de São Paulo.
O artista também manteve contato com a Universidade Federal de Goiás (UFG), onde trabalhou como modelo vivo em atividades acadêmicas. Já em Goiânia, parte de suas obras integra uma exposição permanente no Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG), onde pode ser apreciada por pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde.
Apesar do reconhecimento, Manoel mantém os pés no chão. Para ele, o trabalho na limpeza urbana e a produção artística não são atividades incompatíveis.
“Uma hora estou na rua varrendo, na outra estou no ateliê pintando. Não deixo a fama subir para a cabeça”, afirma.
Pontilhismo transforma a natureza em pequenas marcas de cor
Nas telas de Manoel, o pontilhismo é uma das principais ferramentas para representar a fauna e as paisagens do Cerrado. A técnica utiliza pequenos pontos de tinta que, vistos em conjunto, formam imagens e criam diferentes efeitos de cor e textura.
O artista aproveita esse recurso para representar também os ciclos da natureza. Em algumas obras, os pontos remetem à poeira que cobre o solo depois das queimadas. Em outras, ajudam a compor a vegetação que volta a crescer com a chegada das chuvas.
Assim, suas pinturas mostram um Cerrado que passa por transformações constantes. Há espaço tanto para a beleza dos animais e das plantas quanto para os impactos da ação humana sobre o bioma.
A escolha dos temas também revela a relação construída pelo artista com o ambiente em que vive. As paisagens não são apenas referências visuais. Elas fazem parte de sua rotina e surgem de observações feitas durante o próprio trabalho.
Artista deixa mensagem para quem deseja viver da arte
Mesmo com uma rotina dividida entre a limpeza urbana e o ateliê, Manoel segue dedicado à produção artística. Ele acredita que o contato com diferentes pessoas e ambientes também contribui para seu repertório criativo.
Ao falar sobre sua trajetória, o artista deixa um conselho para quem deseja seguir o mesmo caminho: não desistir e buscar apoio de outras pessoas.
“Às pessoas que veem na arte uma oportunidade, não desistam e peçam ajuda a outras pessoas”, recomenda.
A história de Manoel mostra como a arte pode nascer dos lugares mais cotidianos. Nas ruas que percorre diariamente, ele encontra referências que depois ganham forma, cor e significado em suas telas. E, enquanto ajuda a cuidar de Goiânia, também leva um pouco da paisagem goiana para o universo das artes plásticas.


