Relatos preservados há gerações em Buenolândia apontam que Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, pode ter sido sepultado na Igreja Nossa Senhora do Rosário. O templo, considerado o mais antigo de Goiás, está prestes a passar por uma restauração de R$ 2,8 milhões. Quase três séculos depois, a possibilidade de encontrar vestígios do bandeirante desperta uma pergunta: será que seus restos mortais estão mesmo escondidos ali?
Leia também: Vai ficar em Goiânia no feriadão? Separamos uma agenda completa de 30/10 a 02/11
Localizada em Buenolândia, distrito da cidade de Goiás, a construção está ligada aos primeiros anos da ocupação colonial do território. A tradição local aponta o interior da igreja como possível local de sepultamento de Anhanguera. Outra versão, porém, indica que ele teria sido enterrado no antigo cemitério que existia ao lado do templo.
Foto: Secult
A história não é apenas uma lenda sem registro. A possibilidade aparece em um parecer do Conselho Estadual de Cultura, elaborado durante o processo de proteção patrimonial da igreja. O documento menciona relatos e lembranças de moradores de Buenolândia e da cidade de Goiás. Entretanto, não apresenta provas documentais ou arqueológicas que confirmem a localização da sepultura.
O que se sabe sobre o possível túmulo de Anhanguera?
O personagem associado à história é Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como segundo Anhanguera. Ele nasceu em São Paulo e comandou uma expedição que chegou à região dos Goyazes no início do século XVIII. Anos depois, em 1726, participou da fundação do Arraial da Barra, núcleo que deu origem à atual Buenolândia.
A trajetória do bandeirante está ligada à exploração de ouro e à expansão colonial pelo interior do Brasil. Ele morreu em 1740, na então Vila Boa, atual cidade de Goiás. Apesar de sua importância na história regional, não há registros conhecidos que permitam identificar com segurança onde ocorreu seu sepultamento.
É justamente essa ausência de informação que mantém a dúvida. A tradição transmitida por moradores aponta a Igreja Nossa Senhora do Rosário, mas também menciona o antigo cemitério localizado nas proximidades. Por enquanto, nenhuma das versões foi confirmada.
Por que alguém poderia ter sido enterrado dentro de uma igreja?
Hoje, a ideia de encontrar uma sepultura dentro de um templo pode causar surpresa. No entanto, durante o período colonial, os enterramentos em igrejas faziam parte dos costumes religiosos no Brasil.
Foto: Secult
Naquele contexto, os templos também funcionavam como espaços funerários. A posição da sepultura podia estar relacionada à condição social e religiosa da pessoa. Em alguns casos, indivíduos considerados importantes recebiam sepultamento próximo aos altares. Outros eram enterrados em diferentes áreas da construção ou no terreno ao redor.
Por isso, a hipótese de um enterramento na Igreja Nossa Senhora do Rosário é compatível com práticas daquele período. Isso, entretanto, não significa que Anhanguera esteja ali. Para identificar uma sepultura, seria necessário encontrar vestígios e reunir evidências capazes de relacioná-los ao bandeirante.
A própria história da igreja apresenta lacunas. Sua data exata de construção ainda não está estabelecida, embora características arquitetônicas e relatos históricos associem o edifício às primeiras décadas do século XVIII.
Restauração de R$ 2,8 milhões pode trazer novas pistas?
O mistério voltou a ganhar atenção com o edital publicado pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult) para contratar a restauração do templo. O orçamento estimado é de R$ 2.877.949,92. A concorrência eletrônica está marcada para 4 de janeiro de 2027, às 9h.
O projeto prevê a recuperação da estrutura e dos elementos arquitetônicos da igreja. Também há previsão de acompanhamento arqueológico durante a execução dos serviços. Esse trabalho permite que especialistas observem, registrem e avaliem possíveis vestígios históricos encontrados durante as intervenções.
Foto: Secult
É importante, porém, não criar uma expectativa que ainda não existe. A previsão de acompanhamento arqueológico não significa que o governo tenha anunciado uma escavação específica para procurar o túmulo de Anhanguera. Também não há confirmação de que algum vestígio relacionado ao bandeirante tenha sido encontrado.
A restauração integra os preparativos para os 300 anos da cidade de Goiás, em 2027. Além da recuperação do edifício, a iniciativa pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre a formação de Buenolândia e a memória das comunidades que vivem na região.
Onde fica a igreja que pode guardar o túmulo?
A Igreja Nossa Senhora do Rosário fica em Buenolândia, distrito da cidade de Goiás, a aproximadamente 182 quilômetros de Goiânia. O lugar também é conhecido como Barra, nome ligado ao antigo Arraial da Barra, fundado em 1726.
A região reúne referências importantes da história goiana, como a igreja, um cruzeiro e um antigo poço artesanal. O conjunto está relacionado à memória dos primeiros núcleos de ocupação colonial do estado.
Quase 300 anos depois, a construção ainda guarda perguntas sem respostas. A tradição dos moradores aponta um possível local de sepultamento, documentos oficiais registram essa memória e a restauração poderá permitir novas observações sobre o patrimônio.
Mas, até que uma pesquisa histórica ou arqueológica apresente evidências concretas, o paradeiro dos restos mortais de Anhanguera continuará sendo um mistério de Goiás.


