Quem olha para o horizonte no fim da tarde durante esta época do ano provavelmente já percebeu um dos espetáculos mais bonitos do Cerrado: o pôr do sol vermelho em Goiás. O céu azul vai dando lugar a tons de amarelo, laranja, rosa e, em alguns dias, a um vermelho tão intenso que parece ter passado por um filtro.
A cena combina perfeitamente com a paisagem goiana e costuma chamar ainda mais atenção durante o período de estiagem. Mas existe uma explicação científica para essas cores. E não, o céu não fica vermelho simplesmente porque o clima está quente ou porque a umidade está baixa.
O fenômeno começa com a própria luz do Sol e com o caminho que ela percorre dentro da atmosfera.
Por que o céu é azul durante o dia e vermelho no pôr do sol?
A luz do Sol parece branca aos nossos olhos, mas é formada por diferentes cores, cada uma associada a determinados comprimentos de onda.
Durante boa parte do dia, quando o Sol está mais alto no céu, sua luz atravessa um caminho relativamente menor dentro da atmosfera até chegar aos nossos olhos.
As moléculas presentes no ar espalham com mais eficiência os comprimentos de onda menores, especialmente azul e violeta. É o chamado espalhamento de Rayleigh, fenômeno que ajuda a explicar por que enxergamos o céu predominantemente azul.
Quando chega o fim da tarde, a geometria muda.
Com o Sol próximo do horizonte, a luz solar precisa percorrer um caminho muito maior através da atmosfera para chegar até quem está observando da superfície.
Ao longo desse percurso, uma quantidade maior da luz azul e violeta é espalhada em outras direções. Os tons de maior comprimento de onda, como amarelo, laranja e vermelho, passam a se destacar na luz que chega aos nossos olhos.
É por isso que o mesmo céu que parecia azul poucas horas antes pode terminar o dia completamente alaranjado.
E por que alguns dias ficam muito mais vermelhos?
Se a explicação dependesse apenas da posição do Sol, todos os entardeceres seriam praticamente iguais.
Não são.
É aí que entram as condições da atmosfera.
Além dos gases que compõem o ar, existem pequenas partículas suspensas conhecidas como aerossóis. Poeira mineral, fumaça, sal marinho e partículas resultantes de diferentes processos naturais e humanos são alguns exemplos.
A NASA explica que poeira e fumaça estão entre os principais tipos de aerossóis presentes na atmosfera.
O tamanho, a quantidade, a composição e até a altitude dessas partículas interferem na maneira como a luz é espalhada.
Por isso, um pôr do sol pode apresentar apenas uma faixa amarela perto do horizonte enquanto, no dia seguinte, o céu inteiro ganha tons de vermelho, rosa e laranja.
Poeira e fumaça deixam o pôr do sol mais bonito?
Aqui existe uma curiosidade importante.
É comum ouvir que quanto mais poeira, poluição ou fumaça existir no ar, mais bonito será o pôr do sol. A relação não é tão simples.
Partículas suspensas podem alterar significativamente as cores do céu e determinados aerossóis em determinadas altitudes podem produzir tons muito intensos. A NOAA explica, porém, que uma grande concentração de aerossóis nas camadas mais baixas da atmosfera pode fazer justamente o contrário: reduzir a intensidade das cores e deixar o horizonte mais opaco.
Ou seja, mais fumaça não significa automaticamente um pôr do sol mais vermelho ou mais bonito.
Quando há partículas demais próximas à superfície, o resultado pode ser aquela camada esbranquiçada ou acinzentada que dificulta enxergar o horizonte.
As queimadas também podem mudar a aparência do céu
O caminho percorrido pela luz solar na atmosfera ajuda a explicar os tons intensos do pôr do sol em Goiás. Foto: Wikimedia Commons
A questão ganha importância especial em Goiás durante a estiagem.
O período seco favorece incêndios florestais e a fumaça produzida pelas queimadas libera uma grande quantidade de partículas na atmosfera.
Essas partículas não necessariamente ficam próximas ao local onde o fogo ocorreu. Correntes de ar conseguem transportá-las por grandes distâncias.
A NASA já registrou inclusive plumas de fumaça alcançando camadas elevadas da atmosfera. Segundo a agência, gases e partículas presentes no caminho da luz conseguem espalhar diferentes partes do espectro solar e modificar a aparência do nascer e do pôr do sol.
Quem quiser entender visualmente esse fenômeno pode conferir a explicação da NASA sobre fumaça, aerossóis e as cores observadas no horizonte.
Isso não significa, entretanto, que um céu vermelho em Goiânia seja evidência de que existe uma queimada próxima.
O próprio fenômeno natural do pôr do sol já produz tons quentes mesmo quando a atmosfera está relativamente limpa.
A estiagem muda o cenário em Goiás
Existe outro motivo para percebermos tanto essas mudanças justamente nesta época.
Goiás atravessa entre o outono e o início da primavera um longo período de estiagem, marcado por pouca chuva e índices muito baixos de umidade.
Em setembro de 2026, o estado voltou a enfrentar uma combinação de calor, baixa umidade, poeira e fumaça de queimadas. O cenário exige atenção principalmente porque essas condições também afetam a qualidade do ar e o sistema respiratório.
O Curta Mais mostrou recentemente como o tempo seco em Goiás pode piorar tosse, falta de ar e outros sintomas respiratórios.
Durante períodos prolongados sem chuva, poeira e outros materiais também podem permanecer suspensos na atmosfera. Dependendo das condições daquele dia, essas partículas interferem na passagem e no espalhamento da luz.
É uma das razões pelas quais o horizonte pode mudar tanto de aparência durante a estação seca.
Então existe uma “época do pôr do sol bonito” em Goiás?
Não exatamente.
Um pôr do sol vermelho, rosa ou alaranjado pode acontecer em qualquer mês do ano.
A física responsável pelo fenômeno continua sendo a mesma: quando o Sol está próximo do horizonte, sua luz percorre uma distância maior dentro da atmosfera e os comprimentos de onda menores são espalhados com mais intensidade.
O que muda de um dia para outro são as condições encontradas pela luz nesse percurso.
Quantidade e tipo de aerossóis, presença de nuvens, umidade, fumaça, poeira e características das diferentes camadas da atmosfera podem modificar completamente aquilo que enxergamos.
Até as nuvens fazem diferença.
Quando estão posicionadas na altura e no momento certos, podem receber a luz avermelhada do Sol já abaixo ou muito próximo do horizonte e criar aqueles céus cor-de-rosa que costumam dominar as redes sociais.
Nem todo pôr do sol vermelho significa poluição
Essa talvez seja a principal conclusão.
Olhar para um céu extremamente vermelho e concluir automaticamente que o ar está poluído é um erro.
A própria atmosfera terrestre já é capaz de produzir tons intensos naturalmente. Da mesma forma, determinadas partículas podem modificar as cores, enquanto concentrações excessivas de fumaça e poluição podem reduzir a visibilidade e deixar o céu menos colorido.
O espetáculo que vemos no fim da tarde é resultado de uma combinação que muda constantemente.
A posição do Sol determina o longo caminho que a luz terá de atravessar. Moléculas e partículas espalham essa luz. Nuvens podem refletir os tons restantes. E nossos olhos recebem o resultado final dessa interação.
Por isso nenhum entardecer é exatamente igual ao outro.
E talvez seja justamente essa imprevisibilidade que transforme o fim de tarde em Goiás em um pequeno evento diário. O céu pode começar azul, ganhar uma faixa amarela no horizonte e, poucos minutos depois, terminar completamente vermelho.
Não é filtro.
É física acontecendo diante dos nossos olhos.


