Goiânia tem um córrego escondido embaixo de ruas que muita gente passa sem saber

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Milhares de pessoas circulam diariamente por algumas das regiões mais movimentadas de Goiânia sem imaginar que existe água correndo debaixo do asfalto. O Córrego dos Buritis atravessa uma área importante da capital, mas boa parte de seu percurso foi canalizada e desapareceu da paisagem. Em alguns pontos, carros e pedestres passam praticamente sobre um curso d’água que existia antes mesmo da construção da cidade.

A história é tão pouco conhecida que virou objeto de pesquisa acadêmica na Universidade Federal de Goiás (UFG). A dissertação “O córrego dos Buritis em Goiânia: paisagens e trajetos invisíveis”, de Mayara Cristina Ribeiro de Souza, investigou documentos históricos, fotografias, mapas e o próprio percurso do córrego.

O estudo mostra como a expansão urbana transformou um curso d’água que fazia parte da paisagem em algo praticamente invisível para quem vive na cidade.

Onde fica esse córrego escondido?

O Córrego dos Buritis está ligado a uma das áreas verdes mais conhecidas de Goiânia: o Bosque dos Buritis.

Mapa com informações sobre o trajeto do Córrego dos Buritis na malha urbana atual de Goiânia. Fonte: Jessica Pinheiro de Vasconcelos/UFG (2024)

Mapa com informações sobre o trajeto do Córrego dos Buritis na malha urbana atual de Goiânia. Fonte: Jessica Pinheiro de Vasconcelos/UFG (2024)

Mas sua história não começa dentro do parque.

O Plano de Manejo do Bosque dos Buritis, disponibilizado pela Prefeitura de Goiânia, identifica nascentes relacionadas ao córrego em regiões hoje intensamente urbanizadas.

Entre elas estão áreas próximas aos clubes da Engenharia e dos Oficiais, no Setor Marista, além da região do Tribunal de Justiça, no Setor Oeste, e do próprio Bosque dos Buritis.

É justamente aí que a história começa a ficar curiosa.

Quem passa pelas ruas e avenidas dessa região dificilmente percebe que existe um sistema hídrico sob seus pés.

O curso foi canalizado em diferentes trechos e incorporado à infraestrutura subterrânea da cidade.

 

O córrego passa pelo coração de Goiânia

Documentos históricos ajudam a reconstruir o caminho.

O Plano de Manejo relata que, antes da intensa urbanização da região, o Córrego dos Buritis era visível na paisagem.

O Córrego dos Buritis foi gradualmente canalizado durante o crescimento urbano de Goiânia. Foto: Prefeitura de Goiânia

O Córrego dos Buritis foi gradualmente canalizado durante o crescimento urbano de Goiânia. Foto: Prefeitura de Goiânia

Há inclusive um relato atribuído à educadora e escritora Maria do Rosário Cassimiro sobre uma conversa com Colemar Natal e Silva, um dos pioneiros envolvidos na escolha da área da nova capital.

Segundo o relato preservado no documento, Colemar contou que, durante o processo de escolha do local onde Goiânia seria construída, chegou a beber água do pequeno córrego com as próprias mãos.

Era o início da década de 1930.

Hoje seria difícil imaginar a mesma cena.

O avanço das construções, ruas e avenidas modificou radicalmente essa paisagem.

 

Uma parte ainda aparece no Bosque dos Buritis

Existe, porém, um lugar onde o córrego volta a fazer parte da paisagem do goianiense.

É justamente o Bosque dos Buritis.

O parque está entre as áreas verdes mais tradicionais da capital e ocupa uma região entre os setores Central e Oeste. A Prefeitura de Goiânia mantém informações sobre o Bosque e outros parques municipais.

Dentro do Bosque, as águas relacionadas ao sistema do Córrego dos Buritis ajudam a alimentar os lagos que se tornaram uma das imagens mais conhecidas do parque.

O Córrego dos Buritis foi gradualmente canalizado durante o crescimento urbano de Goiânia. Foto: Prefeitura de Goiânia

O Córrego dos Buritis foi gradualmente canalizado durante o crescimento urbano de Goiânia. Foto: Prefeitura de Goiânia

Depois disso, porém, a água volta a desaparecer.

O Plano de Manejo registra que, após determinados trechos, a canalização do córrego é retomada.

É como se o curso d’água aparecesse por alguns instantes no meio da cidade e depois voltasse para o subterrâneo.

Goiânia praticamente apagou o córrego da paisagem

A transformação não aconteceu de uma vez.

A pesquisa desenvolvida na UFG mostra que o processo ocorreu gradualmente, acompanhando o crescimento da capital.

O Córrego dos Buritis já aparecia no primeiro planejamento urbano de Goiânia, elaborado por Attilio Corrêa Lima em 1933.

Com a expansão urbana, entretanto, ruas, avenidas, edifícios e outras estruturas passaram a ocupar áreas próximas ao seu percurso.

A canalização tornou possível incorporar parte desses espaços à malha urbana.

O resultado é curioso: o córrego continua existindo, mas deixou de participar visualmente da rotina da população.

A dissertação da UFG define justamente essa situação como uma espécie de invisibilização da paisagem hídrica.

Não significa que a água desapareceu.

Nós é que deixamos de vê-la.

Até as nascentes ficaram escondidas

Talvez essa seja uma das partes mais surpreendentes da história.

Não foi apenas o leito do córrego que desapareceu da superfície.

Algumas de suas nascentes também ficaram cercadas ou cobertas pelo processo de urbanização.

Uma reportagem especial de O Popular sobre a história de Goiânia registrou que o Córrego dos Buritis atualmente quase não pode ser visto pela população e que até áreas de nascente acabaram incorporadas ao ambiente construído da cidade.

Em outras palavras, quem olha hoje para prédios, estacionamentos e avenidas daquela região dificilmente consegue imaginar a paisagem que existia ali antes da consolidação da capital.

Uma caminhada seguiu o córrego escondido

A existência desse percurso invisível voltou a chamar atenção neste fim de semana.

Neste domingo, 20 de setembro, uma caminhada fotográfica percorreu parte do trajeto do Córrego dos Buritis.

A atividade integrou o Festival Educação para o Presente 2026 e saiu da Praça Augusto Fleury Curado, no Setor Sul, seguindo em direção ao Bosque dos Buritis.

O próprio Curta Mais mostrou a programação da caminhada pelo Córrego dos Buritis, criada justamente para observar e registrar a presença do curso d’água na paisagem urbana.

A escolha do trajeto tem um simbolismo interessante.

Mesmo quando não é possível enxergar a água, é possível seguir as marcas que ela deixou na formação da cidade.

Um pedaço da Goiânia antiga continua correndo sob a cidade

Goiânia nasceu cercada por cursos d’água.

Com o crescimento urbano, muitos deles foram modificados, canalizados ou incorporados ao sistema de drenagem.

O Córrego dos Buritis talvez seja um dos exemplos mais curiosos justamente por atravessar uma região tão conhecida da capital.

Ele está relacionado ao Setor Marista, passa por áreas próximas ao Setor Oeste e aparece novamente em um dos cartões-postais mais tradicionais de Goiânia.

Depois volta a desaparecer.

Por cima, a cidade continua funcionando normalmente.

Passam carros, pessoas, prédios foram construídos e bairros inteiros se desenvolveram.

Por baixo, parte daquela paisagem que existia antes da Goiânia que conhecemos continua seguindo seu caminho.

E provavelmente muita gente já passou por cima dela sem sequer imaginar.

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