Goiânia terá Memorial do Césio-137 quase 39 anos após a tragédia; saiba como será – Curta Mais

Compartilhe essa matéria!

Quase 39 anos depois de o acidente com o Césio-137 marcar a história de Goiânia, a cidade terá um espaço dedicado a preservar essa memória.

A Prefeitura de Goiânia sancionou, em 27 de agosto de 2026, a lei que cria oficialmente o Memorial e Museu Césio-137. A proposta passou pela Câmara Municipal e recebeu aprovação unânime dos vereadores antes da sanção.

O projeto pretende reunir documentos, imagens e outros registros do acidente. Além disso, o espaço deverá homenagear as vítimas e os profissionais que participaram da resposta à emergência.

No entanto, o memorial ainda não tem endereço definido. A legislação também não estabelece uma data para a construção ou para a abertura ao público.

Césio

O que o Memorial do Césio-137 terá

A lei estabelece que o futuro espaço deverá preservar a história do acidente e seus impactos sociais, culturais e sanitários.

A estrutura poderá receber uma exposição permanente, formada por documentos, objetos e materiais audiovisuais relacionados ao episódio.

Além disso, a legislação prevê um espaço de homenagem com os nomes das vítimas. O projeto também inclui áreas de convivência, auditório e um centro voltado à pesquisa e à documentação.

Exposições temporárias e atividades científicas e culturais também poderão fazer parte da programação.

Outro ponto previsto na lei envolve a possibilidade de parcerias. A Prefeitura poderá trabalhar com universidades, museus, instituições científicas e outras organizações para implantar e administrar o espaço.

Onde ficará o memorial?

Essa é uma das informações que ainda não foram definidas.

A lei determina que o Executivo municipal escolha uma área pública para receber o Memorial do Césio-137. Até agora, portanto, não existe endereço oficial.

O vereador Lucas Kitão, autor do projeto, já manifestou preferência pela região central de Goiânia. A área concentra alguns dos locais diretamente relacionados ao caminho percorrido pela fonte radioativa em 1987.

Leia também: João Gomes vai cantar em um dos cenários mais bonitos de Goiás; veja quando

O antigo ferro-velho de Devair Alves Ferreira, no Setor Aeroporto, também já apareceu nas discussões sobre possíveis locais. Porém, a Prefeitura ainda não escolheu oficialmente o imóvel.

A definição do endereço terá um peso simbólico. Afinal, alguns dos locais relacionados ao acidente ainda fazem parte da paisagem da cidade.

Por que o memorial chega agora?

A criação do espaço acontece enquanto sobreviventes e familiares continuam cobrando reconhecimento e assistência.

Em abril de 2026, por exemplo, a Associação das Vítimas do Césio-137 realizou uma audiência pública no terreno onde funcionava o antigo ferro-velho de Devair. O encontro colocou novamente no centro do debate a memória das pessoas atingidas pelo acidente.

Para quem viveu a tragédia, o episódio não terminou em 1987.

Donizeth Rodrigues de Oliveira trabalhava no ferro-velho onde o material radioativo foi manipulado. Ele afirma que ainda enfrenta consequências e cobra assistência do poder público.

“Não aguento mais pedir ajuda. É como se não tivesse acontecido nada com a gente”, relatou.

A criação do memorial, portanto, ganha uma dimensão que vai além da preservação histórica. O espaço também poderá registrar os relatos das pessoas atingidas e mostrar como o acidente alterou suas vidas.

Como começou o acidente com o Césio-137

Para entender a importância do futuro museu, é preciso voltar a setembro de 1987.

O acidente começou quando Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira retiraram partes de um aparelho utilizado em radioterapia nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia, na região central de Goiânia.

O equipamento estava abandonado nas ruínas do imóvel.

Em 13 de setembro, os dois homens levaram parte do aparelho para a casa de Roberto, na Rua 57. Eles não sabiam que dentro do equipamento existia uma fonte contendo Césio-137, um material radioativo utilizado em equipamentos médicos.

Dias depois, partes do equipamento chegaram ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira.

Foi ali que a tragédia ganhou uma dimensão ainda maior.

O brilho azul que chamou atenção

A fonte radioativa emitia um brilho azulado no escuro.

Sem conhecer o perigo, algumas pessoas se interessaram pelo material. Fragmentos circularam entre casas e familiares. Crianças também tiveram contato com a substância.

O Césio-137 podia contaminar a pele e também entrar no organismo por inalação, ingestão ou ferimentos. Enquanto isso, as primeiras pessoas que adoeceram ainda não sabiam que os sintomas tinham relação com radiação.

Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, percebeu que havia algo errado. Depois de observar o adoecimento de pessoas próximas, ela relacionou os problemas à peça que havia chegado ao ferro-velho.

Em 28 de setembro, levou o material até a Vigilância Sanitária.

No dia seguinte, o físico Walter Mendes Ferreira analisou a peça e identificou níveis elevados de radiação. A partir daquele momento, as autoridades começaram a dimensionar a emergência e a rastrear os locais por onde a fonte havia passado.

Mais de 112 mil pessoas passaram por medição

A resposta mobilizou uma grande operação.

Entre 30 de setembro e 21 de dezembro de 1987, mais de 112,8 mil pessoas passaram por medições para verificar possível contaminação.

Desse total, 249 apresentaram algum grau de contaminação. Outras 129 pessoas precisaram de acompanhamento médico permanente.

O acidente também provocou quatro mortes diretamente relacionadas à exposição aguda.

Entre elas estava Leide das Neves Ferreira, que tinha apenas 6 anos. A menina se tornou um dos principais símbolos da tragédia. Hoje, o centro estadual responsável pelo acompanhamento dos radioacidentados leva seu nome.

Cerca de 6 mil toneladas de rejeitos

A operação também precisou lidar com os materiais contaminados.

Casas foram demolidas. Objetos pessoais foram descartados. Veículos passaram por descontaminação. Além disso, aproximadamente 6 mil toneladas de rejeitos radioativos foram produzidas durante a operação.

O material recebeu destinação definitiva em depósitos localizados em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana.

O acidente recebeu posteriormente classificação nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos, que vai até o nível 7.

Além disso, a experiência de Goiânia provocou mudanças em procedimentos brasileiros de radioproteção, descontaminação, gerenciamento de rejeitos e atendimento às pessoas afetadas.

Uma cidade que também precisou enfrentar o estigma

O Césio-137 não deixou apenas marcas físicas.

Goiânia também enfrentou o medo e a desinformação sobre a radiação. Produtos de Goiás sofreram rejeição em outros mercados. Moradores da cidade passaram por situações de preconceito relacionadas à origem.

Pesquisas acadêmicas registraram os impactos econômicos e sociais desse período. O poder público também promoveu ações para mostrar que a cidade não estava inteira contaminada.

Esse capítulo também deverá fazer parte do futuro memorial.

A própria lei determina que o espaço trate dos impactos sociais, culturais e sanitários provocados pelo acidente. Dessa forma, a proposta não se limita a contar quando a fonte foi encontrada ou como ocorreu a descontaminação.

A ideia é preservar uma história que envolve vítimas, sobreviventes, profissionais, famílias e uma cidade inteira.

Quando o Memorial do Césio-137 ficará pronto?

Ainda não existe uma data.

A lei criou oficialmente o Memorial e Museu Césio-137, mas a Prefeitura ainda precisa escolher o local e definir os próximos passos para a implantação.

Os recursos deverão sair de dotações orçamentárias próprias. A legislação também permite suplementações, convênios e parcerias para viabilizar o projeto.

Enquanto isso, o atendimento às pessoas relacionadas ao acidente continua no Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA), no Setor Aeroporto.

O centro acompanha os radioacidentados por meio do Sistema de Monitoramento dos Radioacidentados, o SISRAD. Mais de mil pessoas ainda estavam em acompanhamento no CARA, segundo informação divulgada pela Câmara Municipal em abril de 2026.

Assim, quase quatro décadas depois, Goiânia começa a construir um novo lugar para contar uma das histórias mais marcantes de sua trajetória.

Dessa vez, não apenas para lembrar o acidente.

Mas também para registrar as pessoas que viveram suas consequências e preservar as lições deixadas por ele.

fonte