Quase 7 em cada 10 famílias recusam doação de órgãos em Goiás; 2.585 aguardam transplante

Compartilhe essa matéria!

Goiás começa setembro de 2026 com 2.585 pessoas aguardando um transplante de órgão ou tecido e um obstáculo que acontece antes mesmo da cirurgia: 67,3% das famílias entrevistadas não autorizam a doação após a morte de um potencial doador.

Os números foram divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás na abertura da campanha Setembro Verde.

A taxa significa que, de cada dez famílias consultadas diante de uma possibilidade real de doação, aproximadamente sete dizem não.

O problema ganha dimensão ainda maior quando comparado à fila.

Atualmente, aguardam em Goiás:

  • 1.807 pessoas por transplante de córnea;
  • 757 por rim;
  • 7 por fígado;
  • 3 por pâncreas;
  • 11 por transplante combinado de pâncreas e rim.

Somados, são exatamente os 2.585 pacientes informados pela Central Estadual de Transplantes.

A fila não é resultado apenas da recusa familiar. Entrada de novos pacientes, compatibilidade, disponibilidade de órgãos, condições clínicas do doador e do receptor, capacidade hospitalar e logística também interferem.

Mas a própria Secretaria da Saúde classifica a negativa das famílias como um dos principais fatores que impedem a realização de transplantes em Goiás.

E existe um detalhe decisivo: no Brasil, dizer em vida que deseja ser doador não é suficiente para autorizar sozinho a retirada dos órgãos após a morte.

A família continua tendo a palavra final.

Fila aumentou em relação a setembro do ano passado

A comparação com a campanha realizada há um ano mostra outro dado relevante.

Em setembro de 2025, Goiás tinha 2.435 pessoas aguardando transplantes, conforme informações divulgadas pela Agência Cora Coralina de Notícias, do Governo de Goiás.

Em setembro de 2026, são 2.585.

Isso representa 150 pessoas a mais, crescimento aproximado de 6,2%.

A comparação, entretanto, precisa ser interpretada corretamente.

Uma fila maior não significa automaticamente que o sistema realizou menos transplantes ou ficou menos eficiente.

Ela pode crescer porque novos pacientes foram incluídos, porque pessoas permanecem vivas por mais tempo aguardando o procedimento ou porque a entrada de receptores foi superior à quantidade de transplantes realizados.

Da mesma maneira, uma fila menor não provaria isoladamente melhora do sistema.

É necessário analisar entradas, transplantes realizados, óbitos, inativações e outras movimentações.

Mesmo com essa cautela, a comparação mostra que a demanda continua elevada e não desapareceu apesar dos avanços na rede de transplantes.

Fila por rim aumentou mais de 10% em um ano

O recorte por tipo de transplante ajuda a entender onde a pressão está crescendo.

Em setembro de 2025, 685 pessoas aguardavam um rim em Goiás.

Agora são 757.

A diferença é de 72 pacientes, crescimento aproximado de 10,5% em um ano.

Na fila por córneas, o total divulgado passou de 1.731 para 1.807 pessoas, aumento de aproximadamente 4,4%.

Já a fila por fígado caiu de 14 para sete pacientes nas duas fotografias anuais.

Esses números mostram estoque de pacientes em determinados momentos. Não revelam sozinhos quantas pessoas entraram ou saíram das filas entre uma data e outra.

Mas permitem identificar onde se encontra a maior demanda atual.

Córneas e rins respondem juntos por 2.564 dos 2.585 pacientes que aguardam transplantes no estado — mais de 99% da fila divulgada.

Córnea concentra sete de cada dez pacientes

A maior fila de Goiás é, de longe, a de córneas.

As 1.807 pessoas aguardando representam aproximadamente 70% de todos os pacientes nas listas informadas pela Central Estadual de Transplantes.

Em fevereiro deste ano, a Secretaria da Saúde anunciou a retomada das atividades do Banco de Olhos do Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás, o Cerof-UFG, que havia permanecido desativado durante seis anos.

Na ocasião, havia 1.847 pessoas aguardando transplante de córnea, e o tempo médio de espera informado era de um ano e nove meses. A retomada foi apresentada justamente como estratégia para ampliar a captação, conforme publicação da Secretaria da Saúde de Goiás sobre o Banco de Olhos do Cerof-UFG.

Comparada à fotografia de fevereiro, a lista atual apresenta 40 pacientes a menos.

Isso não é suficiente, isoladamente, para atribuir a redução à reabertura do banco.

Mas mostra por que ampliar captação de córneas é estratégico para Goiás: é nessa modalidade que se concentra a maior parte da espera.

Por que tantas famílias recusam?

Não existe uma única explicação capaz de justificar cada negativa.

A decisão ocorre em um dos momentos emocionalmente mais difíceis enfrentados por uma família.

Morte inesperada, desconhecimento sobre o processo, dúvidas religiosas, medo de mutilação do corpo, desconfiança, dificuldade de compreender a morte encefálica e desconhecimento sobre a vontade do familiar podem influenciar a resposta.

A Secretaria da Saúde concentra a campanha deste ano justamente em um desses fatores: a conversa anterior dentro da família.

Se uma pessoa nunca falou sobre doação, seus parentes precisam tomar uma decisão extremamente sensível no momento do luto sem saber qual seria a vontade dela.

Quando essa intenção já foi discutida, a família possui uma referência.

É por isso que a principal orientação oficial não é apenas “seja doador”.

É:

avise sua família que você quer ser doador.

A família realmente pode impedir a doação?

Sim.

O Ministério da Saúde explica que a autorização familiar é indispensável para a retirada de órgãos e tecidos de uma pessoa falecida.

Mesmo quando alguém manifestou durante a vida que desejava doar, os órgãos não são retirados se a família não autorizar.

Por isso, uma declaração pessoal de vontade possui enorme importância, mas a conversa com os familiares permanece fundamental dentro das regras atuais.

Existe inclusive a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano, a AEDO, criada para registrar formalmente essa vontade.

O Conselho Nacional de Justiça disponibiliza gratuitamente o procedimento eletrônico por meio do sistema notarial.

A AEDO funciona como declaração de vontade do cidadão.

Ainda assim, a legislação e os procedimentos do Sistema Nacional de Transplantes mantêm a participação da família no processo.

Portanto, registrar a intenção pode reforçar a manifestação pessoal, mas não torna desnecessário conversar com quem provavelmente será chamado a decidir no hospital.

Morte encefálica não é coma

Uma das dúvidas que cercam a doação está relacionada ao conceito de morte encefálica.

Ela não significa coma profundo.

Segundo o Ministério da Saúde, morte encefálica corresponde à perda completa e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico.

A pessoa morreu.

A presença temporária de batimentos cardíacos ocorre porque equipamentos mantêm artificialmente funções como ventilação e circulação por determinado período.

O diagnóstico segue protocolo médico específico, com critérios padronizados e exames realizados por profissionais capacitados.

Somente depois da confirmação do óbito é que a possibilidade de doação é discutida com a família.

A decisão de declarar a morte, portanto, não depende da vontade de retirar órgãos.

Primeiro é determinada a morte encefálica.

Depois começa o processo relacionado à eventual doação.

O médico que trata o paciente não escolhe quem receberá o órgão

Outro receio recorrente envolve a distribuição.

Os órgãos não são destinados pela família a uma pessoa escolhida e não são entregues a quem possa pagar mais.

Os receptores estão inscritos no Sistema Nacional de Transplantes.

O Ministério da Saúde explica como funciona a lista de espera, que é informatizada, única por estado ou região e monitorada pelo sistema nacional.

A definição de quem poderá receber determinado órgão considera critérios técnicos.

Entre eles estão:

  • compatibilidade sanguínea;
  • compatibilidade genética quando necessária;
  • características físicas relacionadas ao órgão;
  • urgência;
  • tempo de espera;
  • condições clínicas específicas.

Quando existe um doador, o sistema identifica os potenciais receptores compatíveis.

Por isso, a lista não deve ser entendida simplesmente como uma fila tradicional na qual quem entrou primeiro obrigatoriamente será o primeiro transplantado.

Um único doador pode ajudar várias pessoas

Um potencial doador falecido em condições adequadas pode permitir a utilização de vários órgãos e tecidos.

O Sistema Nacional de Transplantes informa que, após morte encefálica, podem ser doados, dependendo da avaliação médica:

  • rins;
  • coração;
  • pulmões;
  • fígado;
  • pâncreas;
  • intestino;
  • córneas;
  • vasos;
  • pele;
  • ossos;
  • tendões.

Isso não significa que todos os órgãos de todo potencial doador serão utilizados.

Idade, doenças, funcionamento dos órgãos, infecções, condições clínicas, tempo disponível e compatibilidade interferem na viabilidade.

Mesmo assim, a possibilidade de beneficiar mais de uma pessoa explica por que cada autorização familiar pode gerar impacto sobre diferentes filas.

Nem toda morte permite doação de todos os órgãos

Também existe uma diferença importante entre morte encefálica e parada cardiorrespiratória.

Em situações de morte encefálica, a circulação pode ser mantida artificialmente por curto período, permitindo preservar órgãos até a retirada.

Quando ocorre parada cardiorrespiratória, a possibilidade de doação fica principalmente restrita a tecidos.

O Ministério da Saúde informa que pessoas falecidas após parada cardíaca podem doar materiais como córneas, vasos, pele, ossos e tendões, conforme as condições e os prazos necessários.

Essa diferença ajuda a explicar por que não basta existir disposição da família.

É necessário que também existam condições médicas para a utilização dos órgãos.

O processo começa dentro do hospital

Quando existe um possível doador, o hospital comunica a Central Estadual de Transplantes.

Após o diagnóstico e a autorização familiar, são realizados os procedimentos de compatibilidade e identificação dos receptores.

O Ministério da Saúde detalha o processo de doação e transplante.

A Central gera uma relação de potenciais receptores, comunica as equipes responsáveis e organiza os procedimentos necessários à retirada e ao transporte.

A logística precisa ser rápida porque os órgãos não permanecem viáveis indefinidamente.

O coração, por exemplo, possui tempo de isquemia muito menor que o rim.

Isso faz com que transplantes dependam também de equipes disponíveis, centro cirúrgico, transporte e coordenação entre hospitais.

A distância também importa

Goiás possui território de aproximadamente 340 mil quilômetros quadrados.

Um potencial doador pode surgir em um hospital distante de Goiânia, enquanto a equipe responsável pela retirada ou o receptor está em outra cidade ou até em outro estado.

Em julho, por exemplo, o Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano, em Uruaçu, realizou uma captação envolvendo fígado, rins e córneas.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, aquela foi a 38ª captação realizada pela unidade.

O episódio mostra por que regionalizar a identificação de doadores é importante.

Quanto maior a capacidade dos hospitais do interior de reconhecer potenciais doadores, realizar corretamente o diagnóstico, conversar com as famílias e acionar a Central Estadual, maior é a possibilidade de transformar uma oportunidade em doação efetiva.

A fila não pode ser reduzida apenas com campanhas

Informação pública é indispensável, principalmente diante de uma taxa de recusa familiar de 67,3%.

Mas reduzir a espera exige mais.

O sistema depende simultaneamente de:

  • identificação rápida de potenciais doadores;
  • diagnóstico correto de morte encefálica;
  • profissionais preparados para conversar com a família;
  • autorização;
  • manutenção clínica do potencial doador;
  • equipes transplantadoras;
  • bancos de tecidos;
  • centros cirúrgicos;
  • transporte;
  • exames;
  • compatibilidade;
  • comunicação entre hospitais e centrais;
  • acompanhamento pós-transplante.

Uma falha em qualquer etapa pode inviabilizar um procedimento.

Por isso, a fila de transplantes é também um indicador da capacidade de articulação de toda a rede de saúde.

Conversar sobre doação antes da morte muda a decisão

A taxa de 67,3% revela um espaço de atuação que não depende da construção de um novo hospital ou da compra de um equipamento.

Depende de informação.

Uma conversa em casa não garante que a família autorizará a doação.

Mas elimina uma dúvida importante: “o que ele ou ela gostaria que fizéssemos?”

Para quem pretende ser doador, a recomendação prática é simples.

Dizer claramente aos familiares.

Não apenas publicar nas redes sociais.

Não apenas imaginar que eles sabem.

Não apenas carregar uma intenção pessoal.

Conversar.

No momento em que uma família precisa tomar essa decisão, saber a vontade da pessoa pode transformar completamente a discussão.

A pergunta não é apenas quantas pessoas estão na fila

Os 2.585 pacientes chamam atenção porque transformam uma política pública em um número visível.

Mas existe outra estatística igualmente importante: quantas oportunidades de doação deixam de se concretizar.

Com recusa familiar de 67,3%, Goiás possui uma margem expressiva para avançar antes mesmo de discutir novas tecnologias.

Isso não significa culpar famílias que enfrentam o luto.

A decisão ocorre sob enorme sofrimento e precisa ser tratada com respeito.

O desafio do sistema de saúde é fazer com que, quando esse momento chegar, a família tenha recebido informação suficiente anteriormente e seja abordada por profissionais preparados.

A campanha Setembro Verde dura um mês.

A necessidade de conversar sobre doação, porém, permanece durante todo o ano.

Enquanto 2.585 pessoas aguardam um órgão ou tecido em Goiás, a discussão precisa sair dos hospitais e chegar às famílias antes que a decisão seja necessária.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas aguardam transplante em Goiás?

Em setembro de 2026, a Secretaria de Estado da Saúde informa 2.585 pacientes nas filas divulgadas.

Qual é a maior fila?

Córneas, com 1.807 pessoas, seguida pelo rim, com 757.

Qual é a taxa de recusa familiar em Goiás?

Segundo a Central Estadual de Transplantes, 67,3% das famílias entrevistadas não autorizam a doação.

Se eu disser que quero ser doador, meus órgãos serão automaticamente doados?

Não. A doação após a morte depende da autorização familiar.

Preciso colocar que sou doador na identidade?

Não existe essa obrigatoriedade. A atitude mais importante é comunicar a decisão à família.

Existe alguma forma de registrar minha vontade?

Sim. O CNJ disponibiliza a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, a AEDO. Mesmo assim, a conversa familiar continua fundamental.

Morte encefálica é coma?

Não. Morte encefálica significa perda completa e irreversível das funções encefálicas e caracteriza a morte da pessoa.

A família escolhe quem receberá os órgãos?

Não. A distribuição segue o Sistema Nacional de Transplantes e critérios médicos e técnicos de compatibilidade, urgência e espera.

Uma pessoa viva pode doar?

Em determinadas condições, sim. O Ministério da Saúde informa que podem existir doações em vida de rim, parte do fígado, parte do pulmão e medula, observadas as regras médicas e legais.

Por que a fila aumentou?

O aumento do número total entre as fotografias de setembro de 2025 e setembro de 2026 não permite determinar uma única causa. A fila depende da entrada de novos pacientes, transplantes, condições clínicas e outras movimentações.

Metodologia

O Opinião Goiás analisou as informações oficiais disponíveis até 3 de setembro de 2026.

A fila atual e a taxa de recusa familiar foram obtidas na campanha Setembro Verde divulgada pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás em 1º de setembro.

Para a comparação anual, foram utilizados os números apresentados pelo Governo de Goiás na campanha de setembro de 2025.

O crescimento de aproximadamente 6,2% foi calculado a partir da diferença entre 2.435 pacientes em 2025 e 2.585 em 2026.

A reportagem não interpreta esse aumento isoladamente como piora da política estadual de transplantes, pois o tamanho da fila sofre influência de diferentes entradas e saídas.

Informações sobre autorização familiar, morte encefálica, distribuição dos órgãos e funcionamento das listas foram confrontadas com as orientações atuais do Sistema Nacional de Transplantes e do Ministério da Saúde.

Fontes consultadas

Secretaria da Saúde de Goiás — Setembro Verde 2026 e fila de transplantes

Governo de Goiás — fila divulgada no Setembro Verde 2025

Ministério da Saúde — como ser doador de órgãos

Ministério da Saúde — morte encefálica

Ministério da Saúde — funcionamento da lista de espera

Conselho Nacional de Justiça — Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos

Secretaria da Saúde — retomada do Banco de Olhos Cerof-UFG

Fonte