O que é verdade e o que é falso nas afirmações de Lula e Flávio Bolsonaro no debate? Confira a checagem

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Lula e Flávio no debate da Globo. (Foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil)

O último debate presidencial antes do segundo turno, realizado pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), foi marcado por acusações políticas e declarações sobre a economia, a segurança pública e os programas sociais que exigem contextualização. Uma checagem publicada pela Folha de S.Paulo, em parceria com a Agência Lupa, identificou problemas de precisão em 20 das 35 afirmações analisadas. Apenas 11 foram classificadas como verdadeiras. A apuração também identificou declarações falsas, exageradas ou apresentadas fora de contexto.

O levantamento apontou incorreções tanto nas falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto nas do senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputam a Presidência da República neste domingo (25).

Flávio Bolsonaro: Tigrinho, embalagens e falas de Lula

Entre as declarações contestadas de Flávio Bolsonaro está a afirmação de que Lula seria responsável pela popularização do jogo do Tigrinho e dos cassinos online. A trajetória da regulamentação das apostas no Brasil, porém, envolve decisões de diferentes governos e mudanças promovidas pelo Congresso Nacional.

As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas durante o governo Michel Temer, em 2018. A regulamentação não foi concluída durante a gestão de Jair Bolsonaro, e o governo Lula encaminhou posteriormente uma proposta ao Congresso. A inclusão dos jogos de cassino online no texto ocorreu durante a tramitação legislativa, antes da sanção presidencial.

Flávio também relacionou a redução do tamanho de embalagens de produtos, como barras de chocolate e pacotes de alimentos, à inflação durante o governo Lula. A prática, conhecida como reduflação, entretanto, já era registrada antes de 2023, inclusive durante o governo Jair Bolsonaro.

Outro ponto questionado foi a afirmação de que Lula teria dito que criminosos roubam celulares para comprar cerveja. A declaração atribuída ao presidente circula há anos em versões editadas de vídeos. Na fala original, Lula se referia à rivalidade entre torcidas de futebol e à possibilidade de torcedores adversários conviverem pacificamente fora dos estádios.

A checagem também analisou a afirmação de Flávio de que Lula teria votado contra a Constituição de 1988. Os constituintes do PT rejeitaram o texto final durante a votação, mas assinaram a Constituição na cerimônia de promulgação. A afirmação, portanto, exige contexto para não sugerir que o presidente tenha rejeitado a Carta Magna em sua totalidade.

Lula: economia e combate à fome

Lula também apresentou declarações que precisaram de correção ou contextualização. Uma delas foi a afirmação de que a economia brasileira não crescia acima de 3% desde 2010. Os dados econômicos registram crescimento superior a esse patamar em 2011 e 2013, durante o governo Dilma Rousseff.

O presidente também afirmou ter acabado com a fome no Brasil em 2012. A declaração confunde a redução da insegurança alimentar com a erradicação do problema. O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas em 2014, mas isso não significava que a fome tivesse sido completamente eliminada do país.

As declarações sobre a situação econômica e social brasileira mostram como indicadores oficiais precisam ser apresentados com recortes temporais e critérios adequados. A comparação entre governos, por exemplo, exige a utilização de períodos equivalentes e a identificação precisa dos indicadores utilizados.

Dívida pública e situação fiscal

A dívida pública também foi um dos assuntos abordados no confronto. Flávio Bolsonaro afirmou que o governo Lula deixaria uma dívida de aproximadamente R$ 11 trilhões.

Nesse caso, o número corresponde à Dívida Bruta do Governo Geral, que inclui as obrigações do governo federal, da Previdência Social e dos governos estaduais e municipais. Segundo dados do Banco Central referentes a agosto de 2026, o indicador chegou a R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

A cifra, portanto, tem correspondência com o indicador oficial. Para avaliar a evolução da dívida, contudo, é necessário considerar também sua proporção em relação ao PIB, a trajetória das despesas públicas, a arrecadação e o custo dos juros.

Debate teve acusações e informações fora de contexto

Além das divergências sobre números e indicadores econômicos, Lula e Flávio recorreram a episódios relacionados às gestões anteriores e às posições políticas do adversário.

A checagem reforça a importância de distinguir informações comprováveis de interpretações políticas. Uma afirmação pode partir de um dado verdadeiro, mas induzir o público a uma conclusão incorreta quando omite informações relevantes, mistura períodos diferentes ou atribui a um único governo uma decisão tomada por várias instituições.

O debate desta sexta-feira foi o último confronto direto entre os dois candidatos antes da votação de domingo. Com a campanha na reta final, declarações sobre economia, segurança pública, programas sociais e corrupção ganharam peso na disputa pelo voto dos eleitores indecisos.


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