Farmar aura e six-seven: o significado das gírias dos jovens que estão deixando muita gente sem entender nada – Curta Mais

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Se você ouviu alguém dizer que uma pessoa conseguiu “farmar aura” ou simplesmente gritar “six-seven” e ficou tentando descobrir o que aquilo significava, não está sozinho. Farmar aura e six-seven estão entre as expressões que atravessaram TikTok, Instagram, memes, escolas e conversas entre jovens, criando uma espécie de idioma paralelo capaz de confundir pais, professores e qualquer pessoa que passe alguns dias longe das redes sociais. A parte mais curiosa é que, enquanto “farmar aura” tem uma explicação relativamente simples, tentar descobrir exatamente o significado de “six-seven” pode ser uma missão quase impossível.

O “67”, pronunciado em inglês como “six-seven”, chegou a ser escolhido pelo Dictionary.com como Palavra do Ano de 2025. Segundo a publicação, as pesquisas pelo termo cresceram mais de seis vezes a partir de junho daquele ano. Dois números que, juntos, praticamente não possuem um significado definido conseguiram se transformar em fenômeno mundial de linguagem. Para entender como isso aconteceu, é preciso entrar no vocabulário das gerações que cresceram dentro dos algoritmos.

Afinal, o que significa “farmar aura”?

“Farmar aura” mistura a linguagem dos videogames com as ideias de carisma, presença e estilo. Nos games, “farmar”, derivado do inglês “to farm”, descreve a prática de realizar determinadas ações para acumular recursos, experiência, moedas ou pontos. A “aura”, nesse novo vocabulário da internet, representa algo mais abstrato: o magnetismo de uma pessoa, sua confiança, seu estilo ou aquele inexplicável “algo a mais” que faz alguém parecer interessante.

Juntando as duas coisas, “farmar aura” significa, em linhas gerais, ganhar pontos imaginários de carisma. É como se existisse um placar invisível acompanhando nossas ações cotidianas. Uma pessoa que faz algo extremamente elegante sem demonstrar esforço ganhou aura. Quem dá uma resposta perfeita no momento certo, mantém a tranquilidade em uma situação complicada ou demonstra confiança sem precisar chamar atenção também pode estar “farmando aura”. Já quem tenta parecer interessante demais e acaba passando vergonha corre o risco de perder alguns milhares desses pontos imaginários.

A graça do meme está justamente em transformar situações banais da vida em uma espécie de videogame social. O conceito traduz para a linguagem dos jovens algo que sempre existiu: aquela percepção de que algumas atitudes aumentam o carisma de alguém enquanto outras produzem exatamente o efeito contrário.

Imagine um placar invisível de carisma

Um exemplo ajuda a entender. Imagine alguém que tropeça no meio da rua, recupera o equilíbrio com naturalidade e continua andando como se absolutamente nada tivesse acontecido. Na brincadeira da internet, poderia receber “+1.000 pontos de aura”. Agora imagine uma pessoa tentando impressionar todo mundo, tropeçando e imediatamente olhando para os lados para conferir se alguém percebeu. Provavelmente receberia “-5.000 pontos de aura”.

O mesmo raciocínio vale para um jogador que marca um gol decisivo e, em vez de comemorar exageradamente, fica parado diante da torcida com expressão de absoluta tranquilidade. Ou para um aluno que responde corretamente a uma pergunta dificílima do professor e simplesmente volta a escrever no caderno. É essa combinação de confiança, naturalidade e aparente ausência de esforço que ajuda a explicar a popularidade da expressão.

A CNN Brasil já explicou que o termo passou a representar comportamentos considerados descolados, diferenciados ou autênticos e relaciona sua origem à linguagem dos jogos eletrônicos. Na prática, “farmar aura” transformou uma percepção subjetiva, o carisma, em uma pontuação imaginária que pode subir ou descer a qualquer momento.

Quem tenta demais pode acabar perdendo aura

Existe uma ironia importante nessa brincadeira: quanto mais evidente fica que alguém está tentando “farmar aura”, maior a possibilidade de acontecer justamente o contrário. Parte do conceito depende da naturalidade. Dentro da lógica do meme, a verdadeira “aura” aparece quando a atitude parece espontânea, quase como uma versão contemporânea do antigo “estilo sem esforço”.

Por isso, a expressão ultrapassou rapidamente a condição de simples gíria e virou matéria-prima para vídeos, memes, montagens e comentários. Uma cena de futebol, um trecho de filme, uma entrevista, uma situação na escola ou até um desconhecido atravessando a rua pode ser submetido ao tribunal imaginário da internet. No fim das contas, a pergunta é sempre a mesma: ganhou ou perdeu aura?

E o que significa “six-seven” ou “67”?

Se “farmar aura” é relativamente simples de explicar, com “six-seven” a história muda completamente. A expressão, também escrita como “67”, “6-7” ou “6 7”, é pronunciada separadamente em inglês: “six seven”. Procurar uma tradução direta pode ser perda de tempo porque ela não possui um significado único e estabelecido. O próprio Dictionary.com destacou essa dificuldade de definição como uma das características centrais do fenômeno.

Dependendo do contexto, “six-seven” pode funcionar como resposta aleatória, brincadeira, código entre jovens ou simplesmente uma expressão usada porque as pessoas daquele grupo reconhecem a referência. Em determinadas situações, nem quem fala parece interessado em explicar exatamente o que aquilo significa. E é justamente aí que está boa parte da graça: reconhecer o meme demonstra pertencimento, enquanto perguntar “mas o que significa isso?” pode denunciar imediatamente que alguém está do lado de fora da piada.

Esse mecanismo ajuda a entender por que uma expressão aparentemente sem sentido conseguiu viajar tão rápido. Piadas internas sempre foram uma forma de criar conexão entre grupos. A diferença é que, na era do TikTok e dos vídeos virais, uma piada interna pode ser compartilhada por milhões de pessoas ao mesmo tempo.

De onde surgiu o “six-seven”?

A origem do fenômeno está associada à música “Doot Doot (6 7)”, do rapper norte-americano Skrilla. Um trecho contendo “6-7” começou a aparecer em vídeos e montagens nas redes sociais. Depois, o número ganhou ainda mais força com conteúdos relacionados ao basquete, especialmente vídeos envolvendo LaMelo Ball, jogador do Charlotte Hornets que mede 6 pés e 7 polegadas de altura.

A combinação reunia praticamente todos os ingredientes necessários para um meme contemporâneo: música viral, basquete, vídeos curtos, uma expressão estranha, números fáceis de repetir e nenhum significado rígido o bastante para impedir que as pessoas criassem novas interpretações. O “six-seven” passou a aparecer em vídeos, comentários, brincadeiras e conversas entre crianças e adolescentes, chegando às salas de aula dos Estados Unidos, onde professores começaram a relatar nas próprias redes sociais a repetição constante da expressão pelos alunos.

O fenômeno mostra uma característica importante da cultura digital: uma expressão já não precisa necessariamente ter significado claro para se tornar popular. Em alguns casos, o fato de ser difícil de explicar aumenta sua capacidade de gerar curiosidade, memes e novas versões.

“67” virou Palavra do Ano

A dimensão alcançada pela brincadeira ficou evidente em outubro de 2025, quando o Dictionary.com escolheu “67” como sua Palavra do Ano. A contradição é interessante: tecnicamente, nem sequer estamos falando de uma palavra. Talvez seja justamente por isso que a escolha represente tão bem a transformação da linguagem na internet.

Segundo o Dictionary.com, as buscas por “67” cresceram mais de seis vezes a partir de junho de 2025. A publicação analisou tendências em pesquisas, redes sociais e notícias para chegar à escolha e reconheceu que o termo é praticamente impossível de definir. Algumas pessoas utilizam “67” em contextos próximos de “mais ou menos”, enquanto outras simplesmente encaixam a expressão em situações aleatórias.

Existe até um gesto associado ao meme, realizado com as duas mãos abertas e as palmas voltadas para cima, alternando movimentos. O ponto central, porém, não está no significado literal. Está em reconhecer o código, reproduzi-lo e demonstrar que você entende a referência.

É Geração Z ou Geração Alpha?

Existe uma distinção importante. Muitas dessas expressões circulam simultaneamente entre integrantes da Geração Z e da Geração Alpha porque as fronteiras culturais da internet são muito menos organizadas do que as classificações demográficas. “Farmar aura” aparece com força entre as duas gerações, enquanto o fenômeno “six-seven” ficou particularmente associado à Geração Alpha, especialmente crianças e adolescentes em idade escolar.

Isso não significa que integrantes da Gen Z não utilizem a expressão, produzam memes ou contribuam para sua disseminação. Na internet, uma gíria não pede certidão de nascimento antes de viralizar. Uma referência pode surgir entre adolescentes, ser apropriada por adultos, chegar às marcas e, semanas depois, já estar sendo abandonada pelos mesmos jovens que ajudaram a popularizá-la.

O Curta Mais já mostrou como as gerações X, Y, Z, Alpha e Beta são classificadas e como as transformações tecnológicas ajudam a explicar diferenças de comportamento entre elas. Também vale conferir nosso guia com outras gírias da Geração Z, que reúne expressões como “tankar”, “FOMO”, “flop”, “delulu”, “cringe”, “shade” e “red flag”.

Por que essas expressões viralizam tanto?

Gírias não são novidade. Cada geração desenvolveu maneiras próprias de falar, vestir, ouvir música e identificar quem pertence ao seu grupo. O que mudou radicalmente foi a velocidade de propagação. Antes, uma expressão poderia surgir em determinada cidade, escola, grupo cultural ou tribo urbana e levar meses ou anos para chegar a outras regiões. TikTok, Instagram, YouTube e outras plataformas praticamente eliminaram essa distância.

Hoje, uma brincadeira criada por um adolescente pode atravessar países em poucos dias. Um som utilizado em determinado vídeo pode ser reproduzido milhares de vezes, ganhar novos significados e chegar às conversas presenciais quase imediatamente. Nesse ambiente, a linguagem deixa de se espalhar apenas de pessoa para pessoa e passa a ser distribuída também por algoritmos capazes de apresentar o mesmo conteúdo a milhões de usuários.

Expressões como “six-seven” carregam ainda um elemento extremamente poderoso: pertencimento. Saber utilizá-las no momento certo funciona como uma espécie de senha. A pessoa mostra que viu o meme, entendeu a referência, acompanha aquela conversa e pertence culturalmente ao grupo. É uma versão digital de algo que seres humanos fazem há séculos ao criar códigos, expressões e comportamentos próprios para identificar seus pares.

O algoritmo também está mudando nosso vocabulário

As novas gerações não estão apenas inventando palavras; estão desenvolvendo uma linguagem moldada pela dinâmica das plataformas digitais. Vídeos precisam conquistar atenção rapidamente, memes precisam ser reconhecidos quase instantaneamente e referências precisam funcionar em poucos segundos. Sons são reutilizados milhares de vezes e uma expressão pode atravessar fronteiras sem jamais receber uma definição formal.

Nesse ambiente, até algo aparentemente sem sentido pode adquirir enorme valor cultural. O “six-seven” é um exemplo quase perfeito porque é curto, repetível, reconhecível e estranho o suficiente para despertar curiosidade. Para quem conhece, funciona como código. Para quem não conhece, provoca uma pergunta inevitável: “O que isso significa?”. E a própria tentativa de encontrar uma resposta ajuda a manter o assunto circulando.

O Curta Mais já explicou também como os algoritmos influenciam boa parte do que aparece na sua tela. Entender essa dinâmica ajuda a perceber por que determinadas palavras, músicas, produtos e comportamentos parecem surgir repentinamente em todos os lugares. Muitas vezes não é impressão: milhares ou milhões de pessoas estão sendo expostas à mesma referência em um intervalo muito curto.

Pequeno dicionário para não ficar perdido

Para quem chegou até aqui tentando atualizar o vocabulário, algumas definições ajudam. Farmar aura significa ganhar pontos imaginários de carisma, presença ou estilo, enquanto perder aura representa fazer alguma coisa considerada constrangedora ou pouco elegante dentro da brincadeira. Six-seven ou 67 é um meme sem significado fixo, utilizado como código, brincadeira ou resposta entre jovens.

Outras expressões continuam circulando. Tankar significa aguentar ou suportar alguma coisa; quando alguém diz “não tankei”, está dizendo algo próximo de “não aguentei”. FOMO, abreviação de “Fear of Missing Out”, descreve o medo de estar perdendo uma experiência ou acontecimento. Delulu, derivado de “delusional”, costuma ser usado para brincar com alguém que alimenta expectativas pouco realistas. Cringe representa algo constrangedor ou capaz de provocar vergonha alheia; flop indica fracasso ou falta de repercussão; e red flag é um sinal de alerta relacionado a uma pessoa, comportamento ou relacionamento.

O problema é que decorar esse pequeno dicionário não oferece nenhuma garantia de atualização permanente. Quando você terminar esta matéria, existe uma boa possibilidade de outra expressão já estar começando a circular nas redes.

Se você entendeu “farmar aura”, acaba de ganhar alguns pontos

No fundo, “farmar aura” e “six-seven” dizem menos sobre duas gírias específicas e mais sobre a velocidade com que a linguagem está mudando. Expressões agora podem nascer nos videogames, atravessar uma música, aparecer em um meme, conquistar milhões de visualizações e chegar às conversas presenciais em questão de dias. Um número aparentemente sem sentido pode até ser escolhido como Palavra do Ano por um dos principais dicionários digitais de língua inglesa.

Para quem cresceu em um mundo de dicionários impressos e expressões que permaneciam populares durante décadas, tudo isso pode parecer absurdo. Para crianças e adolescentes acostumados a deslizar o dedo por centenas de vídeos curtos, é simplesmente uma nova forma de linguagem e pertencimento.

Talvez daqui a alguns anos ninguém mais fale em “farmar aura”. Talvez “six-seven” se transforme em uma daquelas referências que denunciam imediatamente a idade de quem ainda insiste em usá-la. Não importa: outras expressões ocuparão o lugar, porque cada geração inventa seus próprios códigos para dizer ao mundo “eu faço parte deste grupo”.

E se, depois de ler tudo isso, você finalmente entender o que um adolescente quis dizer quando comentou que alguém estava “farmando aura”, considere-se atualizado. Pelo menos até a próxima trend.

Links internos sugeridos: matéria do Curta Mais sobre as gerações X, Y, Z, Alpha e Beta; guia do Curta Mais sobre gírias da Geração Z; matéria sobre como os algoritmos influenciam o conteúdo que aparece nas redes sociais.

 

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