Mendonça admite encontro com Vorcaro em 2025 e diz que conversa tratou de precatórios

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta quarta-feira (2) que recebeu Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, em março de 2025, em São Paulo. A admissão ocorreu após a divulgação de mensagens e áudios extraídos pela Polícia Federal (PF) do celular do banqueiro, nos quais aparecem referências à articulação do encontro.

Segundo o gabinete de Mendonça, Vorcaro foi recebido uma única vez, por iniciativa do próprio empresário, e o ministro teria se limitado a ouvi-lo. A versão apresentada pelo magistrado é de que a conversa tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo em tramitação no STF envolvendo créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

A documentação divulgada, porém, acrescenta um elemento de controvérsia. Em um áudio enviado pelo advogado Ciro Rocha Soares a Vorcaro, antes do encontro, o advogado afirma que Mendonça tinha conhecimento da situação do Banco Central envolvendo o Master e que estaria disposto a receber o empresário.

A existência do encontro, portanto, deixou de ser uma informação apenas apontada pelas mensagens. Ela foi confirmada pelo próprio ministro. A principal divergência passou a estar em qual era exatamente a pauta da reunião e o contexto em que ela foi articulada.

 

 

De acordo com informações divulgadas pelo UOL, o encontro ocorreu em 14 de março de 2025, por volta das 17h, em São Paulo, em endereço onde funcionava o Instituto ITER, instituição fundada por Mendonça. O ministro afirmou ao Estadão que a conversa durou entre 20 e 30 minutos.

A aproximação teria sido articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro registram a movimentação que antecedeu a reunião.

Em uma das mensagens, o advogado afirma ao banqueiro que Mendonça queria recebê-lo. Em outro trecho, Soares diz que havia contado ao ministro sobre a situação do Banco Central envolvendo o Master e que o deputado Cezinha também havia conversado com Mendonça sobre o assunto.

No dia do encontro, mensagens também registraram a chegada de Vorcaro ao local. Segundo o UOL, uma conversa do banqueiro com o motorista indica a permanência no endereço até aproximadamente 18h40.

Mendonça, entretanto, afirma que a reunião com Vorcaro e o atendimento ao advogado ocorreram em datas diferentes.

 

 

Em nota, o gabinete do ministro confirmou que Vorcaro foi recebido uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do empresário.

A explicação oficial é que o assunto tratado foi a STP 976, processo que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Segundo Mendonça, o processo estava, na data da reunião, com pedido de vista de outro ministro do STF.

O magistrado também afirmou que Vorcaro procurou outros integrantes da Corte para tratar do mesmo processo.

Outro ponto destacado pelo ministro é que sua atuação posterior no caso teria sido contrária aos interesses defendidos pelo empresário. Segundo a nota, Mendonça manteve uma posição que já adotava em processos semelhantes.

O gabinete ainda declarou que Mendonça não comentaria diálogos privados entre terceiros e que sua atuação seria pautada pela legalidade e pela impessoalidade.

 

 

A existência dos áudios encontrados no celular de Vorcaro é o principal elemento que aumenta a controvérsia em torno da reunião. Segundo a documentação divulgada, o advogado Ciro Rocha Soares afirmou anteriormente ao banqueiro que Mendonça já tinha conhecimento da situação do Banco Central envolvendo o Master.

Em uma mensagem de áudio, Soares afirmou que havia conversado com Mendonça e que estava “trabalhando” em favor de Vorcaro. Em outro momento, disse que o ministro queria receber o empresário e mencionou que o deputado Cezinha de Madureira também havia conversado com Mendonça.

O gabinete do ministro não confirmou o conteúdo dessas conversas. Mendonça afirmou que não comenta diálogos privados entre terceiros.

Isso significa que, até o momento, o conteúdo do áudio não comprova por si só que Mendonça tenha discutido irregularidades do Banco Master com Vorcaro ou que tenha atendido a algum pedido do empresário. O que está confirmado é a realização do encontro.

 

 

A STP 976 mencionada pelo ministro não é um processo criado especificamente por causa do Banco Master. Trata-se de uma ação que envolve a Agro Industrial Tabu e outros interessados e que chegou ao STF em discussão relacionada ao regime de precatórios.

O processo envolvia questionamentos sobre a expedição de precatórios antes da definição do valor devido e sobre possíveis impactos para a ordem e a economia públicas. A jurisprudência do STF registra que a ação discutia justamente a necessidade de liquidação da sentença e de perícia para definir o valor devido antes da expedição dos precatórios.

Segundo a explicação apresentada pelo gabinete de Mendonça, os créditos discutidos eram de interesse do Banco Master. Por isso, Vorcaro teria procurado interlocução com ministros do Supremo.

O próprio Mendonça afirma que sua atuação jurisdicional acabou contrariando a posição defendida pelo empresário.

 

 

A revelação do encontro ganhou peso adicional porque Mendonça atualmente é o relator do caso Banco Master no Supremo.

Ele assumiu a relatoria em fevereiro de 2026, depois que Dias Toffoli deixou o comando da investigação. A redistribuição ocorreu por sorteio após Toffoli pedir para deixar a relatoria em meio ao aumento dos questionamentos sobre sua relação com Vorcaro.

Pouco depois de assumir o processo, Mendonça recebeu delegados da Polícia Federal para tratar dos aspectos técnicos e procedimentais da investigação.

A situação cria agora uma questão adicional de natureza institucional: o relator da investigação sobre o Banco Master confirmou que teve contato pessoal com o controlador da instituição antes de o escândalo vir a público.

Isso, por si só, não demonstra irregularidade ou suspeição. A relevância jornalística está no fato de que o encontro ocorreu quando Vorcaro ainda buscava interlocução com integrantes do Judiciário e, posteriormente, Mendonça se tornou o responsável pela condução do caso no STF.

 

 

O Banco Master entrou no centro de uma grande investigação da Polícia Federal após suspeitas relacionadas a operações financeiras da instituição. Daniel Vorcaro acabou preso no âmbito das investigações e passou a ser alvo de diferentes medidas judiciais.

A investigação também identificou contatos entre Vorcaro e autoridades de diferentes instituições. O celular do empresário, apreendido pela Polícia Federal, tornou-se uma das principais fontes de informações sobre essas relações.

Foi justamente a análise desse aparelho que levou à divulgação de mensagens envolvendo autoridades, entre elas integrantes do STF.

A revelação do encontro com Mendonça ocorre um dia depois de o ministro ter tornado público relatório da Polícia Federal que detalha contatos entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. O material provocou nova crise política e institucional em torno das relações do empresário com autoridades públicas.